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  • Foto do escritorRossana Lana

Memória da imprensa sindical

Atualizado: 22 de jul. de 2020

Conheça o relato da jornalista Solange Espírito Santo, que acompanhou a Greve dos Golas Vermelhas, pela Tribuna Metalúrgica.



Luiz Marinho (ao centro), então vice-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema (atual Sindicato dos Metalúrgicos do ABC), acompanhado pelos jornalistas, durante a Greve dos Golas Vermelhas. Foto: Roberto Parizotti


"Naquela sexta à noite, estava sozinha na redação da Tribuna Metalúrgica (que funcionava na casa da esquina da travessa Monteiro Lobato) e recebi um telefonema do Bagaço pedindo para eu ir até a Ford porque eles estavam com uns “probleminhas” lá. Imediatamente, fui até o Sindicato e encontrei o Luiz Marinho, que estava indo para a montadora. Fui de carona com ele.


Ao chegarmos, havia dezenas de jornalistas na portaria da Ford da avenida Taboão, que haviam sido retirados de dentro da fábrica pelos trabalhadores. Entrei com Marinho na fábrica e vi que alguns carros da diretoria da empresa tinham sido danificados pelos trabalhadores. Marinho seguiu correndo para o prédio administrativo e eu acabei cercada pela peãozada que achou que eu era jornalista da grande imprensa. O cerco se fechava cada vez mais, até que fui reconhecida por um trabalhador que me encaminhou até os membros da Comissão de Fábrica.


Na sequência, fui levada pelo Bagaço até a sala da CF, onde encontrei Clovis Cranchi Sobrinho, fotógrafo do Estadão, que tinha passado mal quando os jornalistas haviam sido retirados da fábrica. Ainda na sala, algum membro da CF colocou na minha bolsa um saco com diversos rolos de filmes fotográficos que eles haviam tirado dos fotógrafos que registraram esse primeiro quebra-quebra dos carros. Acompanhei Clóvis até a saída da fábrica e me dirigi ao prédio administrativo, onde Marinho e outros dirigentes negociavam com a Ford o pagamento do adiantamento salarial dos trabalhadores que não estavam em greve.


Depois de um tempo, sem nenhum avanço na negociação, Bagaço foi ao caminhão de som, também posicionado na portaria, e informou que a Ford estava intransigente. Na sequência, os trabalhadores reuniram os diretores do Sindicato e os membros da CF e os colocaram para fora da fábrica, dizendo que o que aconteceria naquele momento era por conta da peãozada e que o Sindicato não poderia ser responsabilizado por aquilo.


Saímos e fomos até uma padaria que fica na avenida Taboão, um pouco distante da montadora. Lá, começamos a ouvir o barulho do estrago que se seguiu. Voltamos e vimos que carros estavam sendo incendiados. De novo, fomos “expulsos” pela peãozada e resolvemos voltar para o Sindicato, onde ficamos de plantão noite adentro.


Na manhã seguinte, soube que a Ford tinha aberto à fábrica para os jornalistas registrarem o estrago. Acionei a TVT e Roberto Parizotti e fomos para lá. Negociei com o assessor de imprensa da Ford, Luiz Carlos Secco, e entramos para também registrar o ocorrido na noite anterior.


Depois, na continuidade da greve, praticamente todos os dias entrei na fábrica pelas mãos de Bagaço e acompanhei o movimento lá dentro, além das assembleias que o Sindicato fazia diariamente. Para mim, dois momentos marcaram essa fase. O primeiro foi quando a empresa fez a proposta de pagar os salários, desde que Bagaço e Zé Preto ficassem afastados da fábrica. Eu estava lá dentro e fui almoçar no refeitório da peãozada e ouvi vários metalúrgicos dizendo que não poderiam aceitar a proposta, porque isso seria uma traição com os companheiros da Comissão de Fábrica. O outro, foi o dia em que a polícia tomou a fábrica e trabalhadores que haviam deixado as instalações, chorando e dizendo: “Essa fábrica é nossa e não da polícia!”.


Sobre os filmes fotográficos, nós, da imprensa do Sindicato, resolvemos, depois de um tempo, jogar todos fora, sem revelá-los, porque entendemos que não seria ético com os profissionais autores das fotos.


Trabalhei cinco anos na imprensa do Sindicato (1986 a 1991) e, para mim, a greve dos Golas Vermelhas foi o movimento mais significativo do período, com a

demonstração inequívoca de consciência dada pelos trabalhadores na Ford."


Jornalistas na sala da Comissão de Fábrica dos Trabalhadores na Ford. Foto: Roberto Parizotti


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